Alerta à imprensa sobre casos de feminicídio


A imprensa tem papel fundamental na defesa da igualdade social e no combate às violências, e sua maior arma é o discurso. A máxima nazista de que, uma mentira dita mil vezes se torna uma verdade, é um fato para quem trabalha com as palavras. Por isso, há de se ter cautela para que ficções hegemônicas não mascarem mais a realidade dolorida. O cuidado e a preocupação devem sempre prevalecer com relação às vítimas e às minorias.
Na semana última semana de agosto, dois casos de feminicídio entristeceram o Distrito Federal e aumentaram a lista de crimes cometidos contra mulheres na capital do País. Letícia Sousa Curado, 26, e Genir Pereira de Sousa, 47, se juntam à estatística revoltante que engloba ainda Vanilma dos Santos, Eliane Maria, Luana Bezerra e outras 13 mulheres assassinadas por serem mulheres, por contrariarem um homem ou por questionarem a imposição masculina sobre seus corpos e vidas.

O problema tem raízes profundas que só pode ser combatido com políticas públicas, que saibam ouvir as mulheres e que confrontem radicalmente os debates sobre gênero, recentemente censurados dos espaços de educação por determinação legislativa. Apesar do longo caminho a ser percorrido para diminuir a violência machista, há pequenas revoluções que podem ser feitas no campo da imprensa. Expressar, destacar e nomear os casos como o que são – feminicídio – é um grande passo.

O Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF declara sua profunda tristeza com a perda de mais mulheres no DF, solidariza-se com os familiares das vítimas e repudia as notícias covardes que alguns veículos locais publicaram, nas quais o feminicídio não foi apontado. É necessário reformar o papel da imprensa na nossa sociedade, diante da conjuntura de violência contra as mulheres.

Não existe crime passional, não existe crime “sem motivo”. O que levou à execução dessas companheiras foi o pensamento tão naturalizado de que o homem tudo pode e de que a mulher tem que se vigiar nos espaços públicos.

Temos o direito de ir e vir, de andar pela cidade, de ocupar as ruas, de pegar carona, ônibus, transporte “pirata”, o que seja. Não importa se nossa saia é curta ou se estávamos embriagadas. Se somos casadas, solteiras, mães, religiosas ou não. Independentemente de onde estivermos, de como formos ou de como nos vestimos, nossas vidas precisam ser respeitadas e preservadas.

Precisamos chamar a atenção das colegas e dos colegas para as nomenclaturas usadas na cobertura dos casos de violência machista. Nos últimos dias, expressões como “se negou a praticar sexo” ou “fugindo das investidas” disfarçam a tentativa de estupro e causam desserviço à sociedade. Para que a violência seja combatida, é preciso primeiro apontar, identificar e nomear. Na sociedade carente de educação, a imprensa tem papel educativo e colabora diretamente para a superação dos problemas ou para a intensificação das desigualdades.

De qual lado os colegas e as colegas jornalistas querem estar?

Nós, do Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF, estamos do lado da batalha pela erradicação das violências, que geralmente começam pela palavra. Qualquer postura omissa corrobora com a manutenção das taxas absurdas de feminicídio e dificulta o entendimento da sociedade. Precisamos falar sobre feminicídio com respeito e responsabilidade.

Foi feminicídio, sim.

Coletivo de Mulheres Jornalistas do Distrito Federal

#ParemDeNosMatar

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