Roda de conversa mostra diversidade de violências sofridas por mulheres no mercado de trabalho

O assédio sexual a mulheres no ambiente de trabalho nem sempre é explícito. O assediador pode parecer apenas uma pessoa simpática, gentil e chegar a confundir a vítima. O importante é estar alerta: se incomoda, constrange, é insistente, utilizado como chantagem ou condição para promoção ou vantagem: não se engane, é assédio sim. O tema e suas consequências foram debatidos na noite dessa quinta-feira (28), na Roda de Conversa Por que Somos Assediadas – Entendendo a Violência de Gênero no Mundo do Trabalho, realizada pelo Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF.

Coletivo de Mulheres Jornalistas apresentou resultado da pesquisa que faz parte da campanha “Assédio Sexual não faz parte do trabalho! Denuncie.”

De acordo com pesquisa do Coletivo, apresentada no debate dessa quinta, das 148 jornalistas que participaram do levantamento. Dessas, 98 são do Distrito Federal. Em relação às jornalistas do DF, 74,3% já sofreram assédio sexual.

Desse grupo, 73% foram assediadas por um superior (chefe, editor, dirigente, etc), 44,3% foram assediadas por um colega de trabalho; e 32,2% por algum entrevistado. Várias jornalistas apontaram ter vivenciado mais de uma situação de assédio sexual durante o exercício da profissão.

Confira a íntegra dos resultados no DF.
– Confira a íntegra dos resultados gerais.

“É um resultado extremamente preocupante. Infelizmente, sabemos que não se restringe à nossa categoria. Precisamos discutir essa realidade para desconstruir e desnaturalizar o assédio sexual nos espaços de trabalho. É importante que as mulheres tenham coragem e apoio para denunciar esses casos. A pesquisa mostra que 79% das jornalistas assediadas não denunciaram o assédio. A grande maioria não o falou algo porque não quis se expor ou porque não sabia onde denunciar”, comenta Renata Maffezoli, coordenadora geral do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF e do Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF.

Segundo Graça Pacheco, muitas mulheres ainda tem medo ou vergonha de denunciar casos de assédio.

Segundo a advogada e especialista em violência doméstica Graça Pacheco, uma das debatedoras da Roda de Conversa, “tão antigo como o trabalho, é a prática de assédio sexual”. “No Brasil, só lá pelos idos de 1980, com as organizações sindicais, as mulheres começaram a se organizar contra o assédio sexual”, contextualiza.

Mesmo com a possibilidade de aderir a movimentos e organizações que combatem o assédio sexual, as mulheres ainda têm medo ou vergonha de denunciar o assediador. “Quando uma mulher diz que foi assediada, ela vai ouvir que provocou isso, que se insinuou e permitiu. Fora isso, principalmente em momentos de crise econômica, a mulher tem receio de perder o emprego, e isso faz com que ela não denuncie o assédio”, esclarece Graça Pacheco, que foi a primeira secretária de Mulheres da Central única dos Trabalhadores de Brasília (CUT).

Gênero e raça

Jacira afirmou que a mulher negra sofre ainda mais com o assédio no ambiente de trabalho.

A dirigente do Sindicato dos Jornalistas do DF, Jacira Silva, que também é membro-fundadora da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF), integrante da Frente de Mulheres Negras do DF e Entorno e do Movimento Negro Unificado (MNU), afirmou que a mulher negra sofre ainda mais com o assédio no ambiente de trabalho. Para ela, a carga histórica escravagista do Brasil reforça mitos racistas como o da mulher negra hipersexualizada sempre disponível.

“Ainda hoje há dificuldade de se denominar ‘quem sou eu’. Precisamos fazer essa pergunta para sabermos qual o nosso comprometimento na construção dessa sociedade justa e igualitária. Se não houver o coletivo, não há transformação”, discursou.

Vítima de assédio sexual e de racismo no ambiente de trabalho no passado, Jacyra Silva afirma que tais práticas vieram para “desumanizar”. “Mas estamos aqui inteiras, íntegras e resistindo. E resistir significa termos a certeza de que temos que transformar esse mundo. E esse cenário sobre assédio sexual é o primeiro que temos que mudar”, refletiu.

Mulheres trans

Taya ressaltou a perpetuação do assédio na produção de conteúdos quando o foco são mulheres trans.

A comunicadora organizacional e mestre em jornalismo pela UnB Taya Carneiro, que também é ativista de direitos humanos e diretora de comunicação da União Libertária de Travestis e Mulheres Transexuais, refletiu que ao mesmo tempo em que as mulheres jornalistas sofrem com o assédio sexual no ambiente de trabalho, elas, de forma geral, praticam a perpetuação dessa prática na produção de conteúdos quando o foco são mulheres trans.

“Não podemos aturar que jornalistas tenham como pauta principal a nossa genitália. Quando um jornalista começa a me entrevistar e já pergunta sobre a minha genitália, eu deixei de ser uma pessoa e virei apenas uma genitália”, reflete a pesquisadora que criou o termo “curiosidade invasiva” para definir a inconveniência dos questionamentos sobre a genitália da pessoa trans em detrimento, até mesmo, de sua condição de ser humano.

Taya, que atualmente trabalha como assessora de comunicação na Liderança do PSOL na Câmara dos Deputados, ainda refletiu sobre as dificuldades das mulheres trans acessarem o mercado de trabalho e, consequentemente, terem como único caminho de sustento a prostituição. Segundo ela, a mulher trans é enxergada pela sociedade como um “pedaço de carne ou objeto sexual”. “É desafiador sair dessa condição. Nós que sofremos essa violência, temos que levar esse questionamento para todos os lugares. Temos que questionar por que nesse bar, naquela loja, naquela redação não tem uma pessoa trans. Precisamos atuar compulsoriamente para garantir emprego”, disse.

Reaja!

Mulheres trocaram experiência e afirmaram a importância de não se isolar em casos de assédio. Procure ajuda. Denuncie!

Em maio de 2017, a Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e o Ministério Público do Trabalho (MPT) lançaram uma cartilha para esclarecer as principais dúvidas sobre assédio sexual no trabalho (leia íntegra aqui).

O material destaca algumas ações que a vítima de assédio sexual pode tomar. Entre elas, dizer claramente não ao assediador; evitar permanecer sozinha no mesmo local que o assediador; livrar-se do sentimento de culpa, uma vez que a irregularidade da conduta não depende do comportamento da vítima, mas sim do agressor; denunciar aos órgãos de proteção e defesa dos direitos das mulheres ou dos trabalhadores, inclusive o sindicato profissional.

A vítima de assédio sexual ainda pode receber indenização do agressor, caso a denúncia seja acolhida pela Justiça do Trabalho. O Código Penal também tipifica o assédio sexual como crime quando praticado por alguém com cargo superior à vítima. A pena prevista é de detenção, de um a dois anos.

Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF

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