Manifesto do Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF

Contra o machismo, o sexismo, a desigualdade e as opressões na sociedade e no jornalismo

Com o propósito de aprofundar o debate acerca das condições de trabalho das mulheres jornalistas e também de incidir na luta contra o machismo, o sexismo, a desigualdade e todas as formas de opressão na sociedade e nos locais de trabalho, diretoras e parceiras do Sindicato dos Jornalistas do DF tiveram a iniciativa, em 2015, de criar o Coletivo de Mulheres Jornalistas. Como parte da agenda do mês de março daquele ano, reunimos, na sede do SJPDF, dezenas de jornalistas dispostas a contribuir com a pauta e a pensar ações que nos coloquem na luta em defesa de nossas demandas específicas, bem como na luta geral do movimento de mulheres do Distrito Federal.

Assim, a partir do debate feito na ocasião, nascemos como um coletivo classista, feminista, anticapitalista, antirracista e anti-LGBTfóbico.

Atentas à necessidade de nos debruçar sobre os problemas que atingem as jornalistas, hoje a maioria da força de trabalho de nossa profissão, temos no Coletivo um espaço para buscar saídas a esse cenário, não restrito à nossa categoria. Assédios moral e sexual no ambiente de trabalho e nas coberturas das pautas, baixos salários, dificuldade de assumir cargos de coordenação e chefia, falta de creches ou auxílios nas grandes empresas de comunicação, licença-maternidade ainda de 120 dias e contratos precários são algumas das dificuldades que mais preocupam as mulheres jornalistas no momento. Aliado a isso, há o fato de que à medida que a profissão vai se tornando cada vez mais feminina, os baixos salários e as condições precárias passam a ser a tônica das contratações.

Entendemos que essas preocupações precisam ganhar corações e mentes do movimento sindical geral das jornalistas e dos jornalistas. As entidades sindicais, no caso a Fenaj e seus sindicatos de base, precisam trazer para dentro de seu cotidiano a pauta das mulheres. Mas é importante que essa pauta tenha o recorte classista e feminista, uma vez que gênero, assim como raça e classe, são estruturantes da sociedade capitalista. E é nessa perspectiva que nos propomos a atuar tanto na nossa categoria, como também junto a outras organizações gerais de mulheres.

Nos propomos, ainda, a incidir na disputa da narrativa com a grande imprensa sobre a cobertura que seus veículos historicamente vêm fazendo da mulher na sociedade. Nossos corpos são colocados como mercadoria e fetiche nas novelas, programas de auditório, no telejornalismo, nos jornais impressos e nas revistas. A situação se agrava, ainda mais, quando falamos de mulheres negras, lésbicas e trans. Assim, precisamos mostrar para a sociedade que nós, mulheres jornalistas, não compactuamos com essa prática da grande mídia e que estamos na luta para alterar a correlação de forças.

Num país em que, em 2016, 503 mulheres foram vítimas de agressão física a cada hora, o que significa 4,4 milhões de brasileiras, conforme levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, precisamos ter como central a batalha contra a violência e o feminicídio, resultados do patriarcalismo histórico de nossa sociedade.  Conforme dados divulgados pela ONU Mulheres, no Brasil, a taxa de feminicídios é de 4,8 para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 2015, o Mapa da Violência sobre homicídios entre o público feminino revelou que, de 2003 a 2013, o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54%, passando de 1.864 para 2.875. Do total de feminicídios registrados em 2013, 33,2% dos homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.

Em relação ao mundo do trabalho, o levantamento “Desigualdade de Gênero no Jornalismo”, realizado pelo Sindicato dos Jornalistas do DF, mostra como anda o respeito aos direitos das mulheres dentro das redações e assessorias de imprensa, além de apontar a incidência de casos de assédios, machismo, racismo e preconceito.

As estatísticas de casos de assédio moral e machismo são preocupantes. Das 535, 417 (77,9%) disseram ter sofrido algum tipo de assédio moral por parte de colegas ou de chefes diretos. Um número maior ainda, 78,5%, foi registrado quando as mulheres responderam se já enfrentaram algum tipo de atitude machista durante entrevistas. Mais de 70% delas disseram que já deixaram de ser designada para uma pauta pelo fato de ser mulher. O assédio sexual também foi apontado como algo comum na nossa profissão.

A pesquisa revela que 61,5% das jornalistas já vivenciaram situações em que apesar de exercerem a mesma função do seu colega de trabalho receberam menos do que ele.

Sobre as mulheres negras, quando perguntadas se acreditavam que essas jornalistas têm menos oportunidade, 86,4% das profissionais responderam que sim.

Nesse contexto, entendemos que os nossos desafios não são poucos. Para enfrentar esses números, que continuam nos colocando em desvantagem aos nossos colegas, além do avanço conservador contra os direitos das mulheres, o Coletivo de Mulheres Jornalistas entende que precisamos estar organizadas, debatendo e fazendo o enfrentamento direto contra as consequências do patriarcalismo e do machismo em nossa sociedade.

Nas ruas, redações, assessorias de imprensa e universidades estaremos mobilizadas contra todas as formas de opressão!

Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF, outubro de 2017.

 

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